sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Meu amigo Adério

Outubro, 5, 2008. Domingo à tarde.

Domingo, finalzinho da tarde, ja tinha votado para prefeito na minha cidade, sem nada em especial para fazer fui correr na pista municipal de atletismo. Me sentia uma tanque da segunda guerra correndo. Pesado, pesadíssimo, joelhos doendo, rangendo. A cada duas voltas correndo caminhava uma para evitar dores absurdas na perna. Me chamava a atenção um homem, já por volta de seus quarenta anos, passando muito facilmente por mim (até ai nenhum espanto), notei que ele corria muito bem, mas muito bem mesmo pela idade que aparentava. O corpo com percentual de gordura de atleta profissional, panturrilhas fortemente esculpidas. Panturrilha, para quem corre sabe muito bem que é o "calcanhar de aquiles". Doe muito facilmente, principalmente quando se sente um tanque de guerra da década de 40.

Finalmente depois de terminar minhas incríveis 8 voltas correndo (sempre intercalando com uma caminhando) respirei fundo alíviado e comecei a caminhar vagarosamente para esfriar os musculos. Então o referido futuro amigo olhou para o céu e comentou sobre o clima ameno.

Começamos então a conversar. Disse meu nome, e fui logo perguntando quantas voltas ele tinha dado. Incríveis 20! Ou seja, enquanto eu dei 8 ele dinha dado 20. Me respondeu então que tinha quarenta e tantos anos. Me senti ótimo! Mais de dez anos mais novo e 12 voltas a menos.

O nome dele é Adério, de fácil conversa, leve, solta assim como as passadas. Desenrolava-a com muita facildade. Disse que tinha começado a correr com 40 anos e que já tinha muitas medalhas e trofeos. Não duvidava mesmo.
Como também gosto muito de conversar o papo foi se desenrolando muito rapidamente e ai já comecei a perguntar sobre a vida dele, se tinha nascido em Itatiba mesmo, etc, etc, etc.

Disse que havia mudado para Itatiba há alguns anos e que estava trabalhando como técnico de manutenção elétrico e de equipamentos de piscina e que também estava morando como caseiro em uma chácara.
Não me recordo como mas a conversa tomou um rumo em que a certa hora ele me disse que ja tinha feito muita coisa ruim na vida. E com o tom da voz mais baixo, bem mais baixo, e olhando para o chão disse que já tinha feito coisas ruins. Tive a impressão de um arrependimento sincero. Alguma coisa triste da vida, este tipo de coisa.
Mesmo com a conversa se enveredando para um caminho delicado não hesitou e nem perdeu a facilidade nas palavras, pelo contrário. E o incrível era o ping-pong que estava rolando, eu perguntava e ele respondia. Entre uma pergunta minha e a resposta dele tinha um flash na minha cabeça "olha o que estou perguntado! como posso fazer isto a uma pessoa que acabei de conhecer. Só eu mesmo! E olha que ele esta respondendo todas questões na boa. Meu Deus!!! assuntos tão delicados e de tanta descriminação".

Fiquei curioso para saber o que ele tinha feito de tão ruim assim, de maneira cuidadosa perguntei se era coisa tipo assalto e sempre deixando a impressão com movimento da cabeça que parecia coisa normal, sabe? Tipo deixando a pessoa à vontade. Ele disse que era sim, que era coisa tipo assalto à banco e que ele era piloto de fuga e responsável por fazer as trocas de carros embaixo dos túneis para despistar o helicóptero da polícia.

O espanto foi meu primeiro sentimento seguido logo logo pela curiosidade e interesse. Ele disse que o grupo era formado por 5 pessoas incluindo ele, que dois tinham morrido de Aids e que os outros dois foram mortos. O primeiro dos outros dois não me recordo como foi morto mas o segundo estava junto com ele quando a polícia pediu para encostar o carro e para os dois saírem, então o primeiro policial sacou a arma e matou a sangue frio e quando apontou para o Adério e desferiu o disparo antes que a bala acertasse meu mais novo amigo o segundo policial bateu no braço do policial que fez o disparo desviando assim a bala. Disse: "deixa este ai, não mata não. Vamos dar mais uma chance pra ele" Incrível, incrível, que história eu estava ouvinda da boca da própria pessoa que havia passado pela cena. Pensei qual seria o sentimento que ele teve na hora, mas por incrível que pareça não perguntei, acho que acabei me esquecendo.

Então eu perguntei se havia passado por outra ocasião parecida. Disse que certa vez estava em um bar sozinho e que tinha outro homem com comportamento estranho olhando para ele. Resolveu então sair do recinto, talvez não quisesse encrenca naquele dia, e em um piscar de olhos o elemento estranho estava de frente pra ele com o três oitão em punho, dedo no gatilho e tudo. Antes de ter tempo de piscar, respirar e tudo mais rápido que possa existir baixou a cabeça e a bala raspou a testa queimando a pele. Minhas únicas palavras foram !!! QUE SORTE !!!

Disse que tinha começado nesta vida porque o pai tinha abandonado o lar inexplicavelmente do dia para noite sem despedir-se e a mãe com vários filhos pequenos para criar (lógico que perguntei quantos mas não me recordo) tinha sérissimas dificuldades para criá-los. Disse também que viveu anos se sustentando de pão e leite que a perua Kombi da padaria deixava na porta das casas pela manhã.

A solidariedade dentro do ser humano dele e dos irmãos era tanta que eles se preocupavam em nunca, nunca mesmo pegar todo o pão de uma única casa. Se tiver muitos pães pegava apenas um, se outra casa tivesse três garrafas de leite pegava apenas uma. Mostrou uma clareza muito grande quando disse que se preocupavam em não deixar a casa sem nada. Incrível, incrível, incrível.

Conforme foi se tornando adulto seu caminho cruzou-se com outros jovens não tão justos e honestos quanto desejamos para nossos filhos e como a dificuldade ainda era companheira inseparável e como meu amigo Edmilson Besseler diz "A necessidade faz o homem" ele partiu para o crime.

Como não devia deixar passar perguntei como conseguiu sair deste tipo de vida. Falou que em certa época quando estava no hospital se recuperando de uma doença ou perna quebrada, não lembro, disse que uma senhora Evangélica lhe deu um livro e que era para ler quando o tédio aparecesse já que iria ficar muito tempo se recuperando. Colocou desprezadamente o livro na mesa ao lado. Então quando o dia apareceu pegou o livro (Bíblia) e abriu uma página qualquer. Começou a ler e em seguida me descreveu um sentimento estranho, numca antes sentido por ele, um sentimento superior que tinha se passado logo após a leitura daquela página.

Seguido a sua saída do hospital a vontade de continuar no crime não existia mais, inexplicavelmente, mas mesmo assim ainda participou de alguns atos ilícitos.

Certo dia com a gangue reunida "pediu demissão", o líder do grupo, se é que pode dizer desta maneira, permitiu sua saída com a condição de deixar toda a parte dele. Não entedi ao certo o que significava mas deixei quieto, preferi não perguntar. Desde então tornou-se muito religioso e frequentador da igreja dos Crentes como se diz na minha cidade natal. E que foi graças ao pessoal desta igreja que ele tinha se recuperado. Que não conseguiria fazer sozinho.

Este ano ele finaliza o segundo grau supletivo e no próximo pretende entrar para a faculdade de educação física. Disse também que tem muita dificuldade em encontrar emprego mesmo passados mais de 16 anos recuperado por causa da sua fixa na polícia. Concordo plenamente em gênero, número e grau com o fichamento de maus elementos pela polícia para proteção do resto da população mas vocês não concordam que deveria existir um outro tipo de registro que atestasse que a pessoa esta devidamente recuperada, sei lá, alguma coisa que comprovasse realmente a recuperação do indivíduo e que permitisse o ingresso na sociedade de maneira honesta, honrada e merecida? Senão como ele poderia honestamente encontrar um emprego? Encontrando uma alma caridosa que devotasse nele a confiança que merecesse?! Qual a chance disto acontecer?

Bom, protestos à parte deste interessantíssimo encontro aprendi o seguinte:

- que a recuperação do indivíduo é possível sim e que talvez ele tenha se tornado eventualmente um bandido por necessidade, por oportunidade e não por opção;
- que a presença da familía, pai e mãe, é o alicerse estrutural que forma a moral dos pequeninos,
- e que pelas idas e vindas entre o mal e o bem a vida dele tinha sido cheia de emoções;
- que a droga é o grande mal da socidade,
- que talvez dentre tanta probreza possam existir muitos atletas olímpicos, muitos Ronaldinhos Gauchos;
- que as pessoas boas, neste casos as Cristãs, puderam salvar uma vida, uma alma e recuperar a honra deste que se tornou um grande cidadão e principalmente,
- que nós, governo e socidade, deveríamos seguir o exemplo dos americanos que, com a ajudam destas almas iluminadas e recuperadas, ajudam a recuperar mais almas através de palestras nas escolas. O que vocês acham?

Grande amigo, grande história, grande exemplo!

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